Certa vez, durante uma reunião em uma empresa, ocorreu-me uma situação que me fez refletir. Uma pessoa comentou que não precisava se preocupar, pois o responsável por uma fiscalização era maçom, assim como um dos diretores da empresa.
Ao ouvir aquilo, perguntei:
— Mas o que uma coisa tem a ver com a outra?
Ele respondeu:
— Eles se cobrem, um protege o outro... Você sabe como é.
Então retruquei:
— Não, não sei como é. Eu também sou maçom.
Foi então que ele disse:
— Ah! Por isso sua entrevista foi tão fácil! Por isso você se dá tão bem com ele.
Naquele momento, respirei e expliquei, mais uma vez, que uma coisa não tinha relação com a outra. Inclusive, fui reconhecer aquele diretor como irmão apenas meses após o início do meu trabalho. E, ainda assim, não é bem dessa forma que nos ajudamos.
Diante desse contexto e por perceber como a Maçonaria ainda é, muitas vezes, mal interpretada, decidi escrever este texto.
Como maçom, posso dizer que muitas das facilidades atribuídas às pessoas simplesmente pelo fato de serem maçons são, frequentemente, fruto de uma espécie de crendice popular. A Maçonaria não me deu um emprego, não me fez rico e não me tornou influente. O que ela fez foi contribuir para que eu buscasse ser uma pessoa melhor, tivesse uma postura mais consciente, aprendesse a falar no momento certo e a refletir sobre aquilo que devo dizer e fazer.
Claro que tudo isso está inserido dentro de um ideal pessoal. Nada é imposto. O que se espera é que cada um trabalhe em si mesmo, buscando a sua melhor versão e procurando contribuir, de alguma forma, para uma sociedade melhor.
Os maçons se ajudam? Sim, mas isso não significa favorecer alguém de maneira injusta ou ignorar critérios de competência e necessidade.
Por exemplo: se estou precisando contratar um seguro e conheço um irmão que trabalha como corretor, naturalmente posso procurá-lo. Se os serviços e produtos que ele oferece atendem às minhas necessidades, ótimo, podemos fechar um negócio. Porém, se aquilo que ele tem disponível não atende ao que procuro, nada me impede de buscar outra pessoa para suprir essa necessidade.
Mas e se ocorrer um acidente? Nesse caso, vocês não se ajudam?
Claro que sim. Como, aliás, deveria fazer qualquer ser humano. Se eu puder ajudar alguém em um momento de necessidade, e isso estiver ao meu alcance, sem que me cause prejuízo ou comprometa outra obrigação, serei um dos primeiros a estar presente.
Nós nos ajudamos dentro das possibilidades e das necessidades, sem desmerecer ninguém e sem considerar que alguém seja melhor do que outra pessoa simplesmente por ser maçom.
Existem casos que fogem daquilo que estou explicando? Sim, existem. Mas não deveriam definir a instituição ou aquilo que ela representa. Como um grande irmão me disse certa vez: “A Maçonaria é ótima; o problema são alguns maçons.”
A postura de determinadas pessoas contribui para que se espalhe a ideia de que a Maçonaria é uma fonte de enriquecimento material e de poder. E, de certa forma, ela realmente pode proporcionar enriquecimento e poder — mas não da maneira como muitos imaginam.
Ela pode proporcionar um enriquecimento filosófico, intelectual e moral, capaz de nos fazer refletir e buscar uma constante evolução. E pode nos dar o poder de colocar essas reflexões em prática, promovendo mudanças, antes de tudo, em nós mesmos.
Muitas vezes, procuramos primeiramente um irmão justamente porque, por pertencermos à mesma Ordem, esperamos encontrar alguém que compartilhe princípios e valores semelhantes aos nossos. Esperamos poder confiar nessa pessoa, acreditando que ela não tentará tirar vantagem de nós ou agir de forma desonesta.
Mas isso nem sempre acontece. Afinal, estamos falando de pessoas, e nenhuma instituição é capaz de eliminar completamente as falhas humanas.
Com isso, espero ter explicado um pouco sobre como funciona — ou, pelo menos, como deveria funcionar — o auxílio entre irmãos: não como um privilégio, uma troca de favores ou um meio de obter vantagens indevidas, mas como uma expressão de fraternidade, confiança, solidariedade e humanidade.